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Abuelito fuego & água coia

Foto do escritor: PéterPéter


Começamos novamente um voluntariado num Sábado e novamente revelou-se um bom dia. Às nove da manhã, estávamos a bater ao portão do Eco Templo Jardim dos Elfos, mesmo a tempo dum workshop de construção em barro com o Aníbal Ruiz, um cromo da matéria que trabalhou com o Michael Reynolds (o inventor das Earth Ship) e também chegou a fazer voluntariado com a Caro e o Felipe, curiosamente.


Neste templo as pessoas vivem em retiro de silêncio. Foi assim que há já uma semana um grupo de quatro amigos espanhóis se encontrava a trabalhar no espaço. Rapidamente se criou uma grande sinergia entre todos, incluíndo o Alberto, um italiano que chegara de manhã também. Pela noite, reunimo-nos à volta da fogueira juntamente com a Elfa, a guardiã do espaço, que nos falou da importância do fogo, um elemento da natureza que conta com anos e poderes milenares e ao qual se deve prestar o devido respeito, não difamando ninguém que não esteja presente à volta da fogueira, nem atirando para a mesma coisas não saudáveis, como plásticos, madeiras com pregos e outras coisas. Devo dizer que espaço e anfitriã nos dividiram desde o primeiro momento. Por um lado gostamos das suas ideias e discurso, por outro lado algo nos fazia sentir desconfortáveis.


Outro habitante do templo era o Benjamin. Fazia pouco tempo que vivera e estudara no Peru com uma comunidade Quechua chamada Quero. Rapidamente se tornou conversa entre os voluntários, pois convidou-nos para uma cerimónia dedicada à Chacana - a constelação Cruz Del Sur - que iria celebrar juntamente com outros dois colegas seus, aprendizes também de xamanismo. Cada qual com as suas dúvidas e expectativas, todos acabaram por aceitar a proposta. Foi assim que pelo início da noite enfiamo-nos oito pessoas dentro duma espécie de Renault Twingo até ao cerro mais próximo da vila.


A cerimónia teria lugar na quinta dum amigo comum a todos. Quando chegamos, o Francisco e o Pablo, os outros aprendizes, já lá estavam, juntamente com o Arturo e o Marcelo, o dono da quinta e um amigo, respectivamente. Sentamo-nos em círculo e no centro demos vida ao Abuelito Fuego. Uma garrafa de água, colhida directamente daquele cerro, circulou entre todos para que bebêssemos os últimos goles antes da cerimónia começar. Durante toda a noite não beberíamos nada que não a “medicina”, ou seja, o líquido do cacto San Pedro, também conhecido por Água Coia. A ideia deste ritual é que a medicina nos ajude a limpar o nosso corpo e a clarificar o nosso espirito.


Outro elemento de grande protagonismo na cerimónia é o tabaco. Entre as várias oferendas que os xamãs colocaram à nossa disposição, estavam cigarros. Nas tribos andinas o tabaco, que para o mundo ocidental é representativo de cancro e dentes amarelos, é das mais importantes plantas, senão mesmo sagrada. Fazem-se rituais com ela pois consideram que o fumo ajuda a relaxar e a conduzir os pensamentos. Assim, é tradição também atirar um punhado de tabaco à fogueira, para que este arda com o fogo e os seus poderes se espalhem entre todos os presentes através do fumo.


Durante toda a cerimónia os xamãs brindaram-nos com as mais variadas músicas. Com instrumentos de cordas ou percussão, cantaram cartas devotas de amor à madre tierra e a todos os seus elementos. Celebra-se Sol, Vento e Água, especial protagonista da cerimónia. Os cânticos são extremamente bonitos e fazem os xamãs encarnarem variados animais da cordilheira dos Andes - como o puma, a águia ou o alpaca - através das suas letras e dos seus trajes e adereços também. Há igualmente momentos de silêncio e momentos de oração. Estes recitos são dirigidos em voz alta ao Abuelito Fuego. É através dele que falamos com a Patcha Mama, a madre tierra, e a ela transmitimos as nossas angústias, desabafamos os nossos medos e pedimos perdão pelo mal que lhe fazemos.


Quando começou a amanhecer, os xamãs deram por finalizada a cerimónia, vertendo um pouco de água sobre o Abuelito Fuego. Como a Água é um símbolo do poder da Mulher, a Catarina, a Tânia e a Anuba (as meninas espanholas) foram convidadas a umas palavras finais, antes de fazerem circular novamente a garrafa entre todos, para que pudéssemos finalmente tornar a ingeri-la, agora com outra forma de encarar esta bebida que tantas vezes consumimos banalmente no nosso dia a dia.


Com a claridade da manhã, chegou um Taita da comunidade Quero no Peru, onde os xamãs estiveram a estudar. Consigo trouxe uma outra cerimónia, uma oferta à Patcha Mama. Esta teve uma dinâmica completamente diferente.


O Taita proclamou algumas palavras em Quechua e organizou uma Mandala com alimentos que todos havíamos trazido como oferenda. Depois, coube a cada um escolher três folhas de coca por entre as várias que se estendiam sob um manto, e pedir um desejo. Aproximamo-nos do Taita para entregar as folhas na Mandala e para que este nos pudesse fazer uma reza. Tornamos a repetir o mesmo processo, mas desta vez para que as folhas escolhidas representassem pessoas às quais queríamos que a Patcha Mama protegesse.


De seguida, foi tempo de oferecer as folhas entre todos nós e abraçarmo-nos mutuamente. Neste momento, a Mandala estava completa e aos pés do Taita. O Benjamin começou a tocar uma bela música de celebração ao Sol e o vale, que ainda estava sob a sombra das altas montanhas, iluminou-se com o Sol que apareceu, finalmente. Pousamos a Mandala na fogueira para que o Abuelito Fuego a consumisse, e todos juntos comemos e partilhamos os alimentos que sobraram.


Esta foi uma experiência inesquecível, pois tratou-se duma pequena janela que se abriu ao mundo nativo do Altiplano. Tivemos contacto com um pouco daquilo que são as tradições ancestrais e, com muito respeito, observamos por instantes esta cultura, cujas raízes são tão diferentes das nossas.


6 de Maio, 2018

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