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O Rio de Janeiro continua lindo...

Foto do escritor: PéterPéter

Este é provavelmente um dos textos mais difíceis de escrever. Por meses evitei-o como quem evita um trabalho difícil e sem prazo para entregar. Lembro-me de algures na Patagónia, conversar com a Catarina sobre a possibilidade de não irmos ao Rio. Nem obtive resposta. Dirigiu-me um olhar fulminante e mudou-se o assunto rapidamente. Bastou entrar num ónibus e sair no centro da cidade para perceber tal reacção de quem já conhecia o Rio. Eu, que vinha farto de cidades, dei por mim apaixonado não sei bem porquê. Por nada e por um todo em concreto. Por um factor energético invisível, pelas avenidas e passeios bem visíveis. Botequins de esquina cheios de frutas penduradas e pessoas debruçadas nos balcões. A magia de conhecer partes da cidade que por anos ouvi referir em músicas. A selva que entra pela cidade a dentro, ou melhor a cidade que entra pela selva a dentro. Enfim…



Ficamos alojados em casa do nosso amigo Raphael em Jacarepaguá, a cerca de uma hora e meia do centro da cidade de ónibus. Para conhecer a cidade contamos também com a ajuda da Inês, uma amiga de Portugal, que por estas bandas é mais conhecida como a portuguesa do samba. Assistir aos seus espetáculos em bares, foi uma forma interessante de dinamizar o nosso calendário e sentirmo-nos um pouco menos turistas com a sua presença. Como já tinha feito um intercâmbio no Rio há muitos anos atrás, a Catarina conhecia bem os cantos à casa. Por isso, o rolé era ela apresentar-me a cidade, os seus recantos e as respectivas histórias de quando aqui foi feliz por um bom pedaço de tempo. Apesar de estarmos juntos à muito tempo e termos uma cumplicidade muito grande, senti que conhecer o Rio de Janeiro foi uma forma de conhecer também na integra uma parte da história pessoal da minha companheira que, apesar de tudo, ainda não conhecia por inteiro. Creio que isso ajudou também a que sentisse um carinho especial pela cidade.



Visitamos as praias de Ipanema e Copacabana, registo obrigatório. Passamos pela rua da primeira casa onde a Catarina morou, quando chegou no Rio. Comemos espetinhos a cada oportunidade e dividimos cervejas geladas em copos pequenos, como gostam de beber aqui no Brasil (fiquei adepto). Tratamos de ir conhecer as rodas de samba mais famosas, como a Pedra do Sal - onde as conversas são tantas que mal se ouve a música - e o Samba do Trabalhador - onde a música é tanta que mal se ouve as conversas. Fomos tomar um café a uma esplanada gringa no morro do Vidigal, mais turístico não podia ser, mas valeu pela experiência de subir a favela agarrado à cintura do motoboy, ziguezagueando por entre carros, outras motos, pessoas e animais. Vadeamos pelo centro, que pelos vistos agora é menos decrépito que à uns anos atrás. Fomos assistir a um concerto no Circo Voador, que contava com a presença da Luedji Luna, Xênia França, Liniker e Maria Gadú. Já de madrugada, regressamos a casa numa daquelas vans não oficias, que passam pela rua gritando o destino para onde vão. “Rio das Pedraaaaa, Rio das Pedraaaaa, Rio das Pedraaaaaaaa!”.

Por três vezes tentamos ir a Santa Teresa, por três vezes desatou a chover do nada. À terceira aceitamos o facto, e lá passeamos pelas ruelas de calçada escorregadia, debaixo dum guarda-chuva empenado pelo vento e dividimos uma cerveja numa esplanada com vista para o morro onde a tempestade descarregava os seus raios. Uma das vantagens de ter a Inês por perto, é que ela é uma espécie de mini-antropóloga da cultura carioca. Assim, fomos conhecer um boteco clássico, que em tempos foi fundado por um português, como acontece com muitos outros botecos e padarias. Lá conhecemos a Verónica, uma pianista de Espinho, cujo sotaque tão forte se fazia sentir mesmo falando no gerúndio. Um dia passeando pela marginal, vimos do outro lado da rua uma carrinha que nos era familiar. E era mesmo! Os nossos amigos colombianos Familoamérica, com quem tínhamos estado em Arégua no Paraguay por uma semana, estavam estacionados em pleno Rio de Janeiro.







Ao longo da viagem, criamos uma nova vertente de interesse para explorar. Desde a experiência da Júlia em Arégua como professora numa escola com um sistema de ensino alternativo, que a questão da educação ficou nos nossos ouvidos. Assim, aproveitámos a estadia no Rio para também explorar este novo campo. A Catarina foi visitar a escola Aldeia Montessori para ter um contacto inicial com esta pedagogia. Por sorte, depois de ter entrado em contacto com a escola e ter explicado o nosso contexto de viajantes, a escola convidou-a a integrar um curso de introdução à metodologia Montessori de forma completamente gratuita. Numa tarde de chuva, fomos ainda assistir também a um documentário sobre escolas holandesas com métodos de ensino distintos, mas as quais se organizam todos através do sistema de sociocracia. No final da exibição, houve ainda uma conversa com a realizadora via Skype. Foi uma excelente forma de conhecer melhor não só a realidade mais prática de escolas onde o método de ensino contorna os procedimentos ditos tradicionais, assim como funciona nestes contextos a Sóciocracia.



Apesar dos imensos roles, o Rio não é uma cidade onde se passeia relaxadamente pela rua, como devem calcular. Eu adorei todo o feeling da capital do Samba, mas sinceramente só por uma obrigação muito grande moraria lá. Seja de dia ou de noite, a tensão é algo que está sempre no ar, tal como o oxigénio, simplesmente faz parte, já de forma natural. Volta e meia convém olhar por cima do ombro, independentemente se estamos numa avenida principal em Ipanema ou numa ruela do centro. Uma aplicação é usada pela maioria dos moradores, a OTT (Onde Tem Tiroteio), serve precisamente para se confirmar em que zonas da cidade está a haver tiroteio antes de sairmos para a rua. Acredito também, que tudo isto não seja significado de que a vida nesta cidade seja um atormento de medo constante. Não. Mas a verdade é que a sensação de segurança implica um custo financeiro. Alguns exemplos: muito mais do que estamos habituados em Portugal, o Uber aqui é uma ferramenta mais do que recorrente. Sair para beber um copo e voltar para a casa a pé é um conceito que não existe, mesmo que a distância do boteco a casa, seja apenas de 500 metros; o Thiago e a Roberta, um casal nosso amigo, estava esperando um bebé e uma das aquisições para a vinda do primeiro filho, para além do berço, roupas, biberão e etc, foi um carro blindado. Já para não falar nos custos imobiliários dos condomínios fechados.


Diria que o que se passa no Rio de Janeiro é a ampliação exaustiva da sensação que existe também no resto do país e até mesmo no resto do continente. Há uma ideia de medo sempre presente. Ninguém é digno de confiança. “Cuidado”, dizem-nos a toda a hora. Se uma pessoa nos dá algo, pode ser perigosa, se uma pessoa não nos dá algo é porque é maldosa. Não que alguma coisa já tenha acontecido directamente a estas pessoas, mas já ouviram histórias de terceiros ou conhecem um amigo dum amigo a quem aconteceu algo. Então o melhor é não arriscar. O medo é um fantasma. Ou melhor, aqui o medo é Deus, omnipresente e invisível. E tal como qualquer religião, nem todos vão à missa, mas não quer dizer que não partilhem da mesma fé.


Toda a nossa estadia no Brasil, cerca de meio ano, foi marcada pelo momento histórico Bolsonaro. Pois, tivemos o privilégio - eu diria - de acompanhar o pré, o durante e o pós eleição. Independentemente do facto ser uma tragédia a nível nacional e internacional, para nós enquanto viajantes e ávidos alunos interessados em conhecer o Brasil, este momento da sua história foi uma oportunidade de conhecer melhor e mais abertamente a cultura do país. Pois os momentos de tensão políticos criam divisões, elevam os sentimentos à flor da pele, fazem alguns cidadãos dizer o que em condições ditas normais não diriam e, por fim, fazem os poetas desabafar as mais lindas frases de amor. Se aquando da nossa chegada ao Brasil, saiu a decisão de que Lula não poderia candidatar-se, durante a nossa estadia no Rio ocorreu a primeira fase de votação, onde Bolsonaro ficou lado a lado com Haddad. Por influência dos amigos e respectivos ambientes que nos rodeiam, confessamos que ficamos surpreendidos. Tínhamos uma ideia bem mais positiva em relação ao desfecho da primeira votação. Creio que não éramos os únicos. Com este empate inicial, de alguma forma já se poderia prever que muito dificilmente Bolsonaro não seria presidente, pois como se pôde posteriormente confirmar, não se tratava duma vitória deste “novo” líder politico, mas sim duma derrota do velho, desgastado e corrupto PT.


Ouvimos as mais diversas discussões partidárias e não-partidárias ao longo do meses. Todos os argumentos têm um contra-argumento. Cada um tem a sua necessidade e realidade pessoal. Eu acredito, que há um limite a partir do qual já não adianta discutir sobre política, porque dois lados opostos serão sempre dois lados opostos, como um casal que opta por distribuir culpas em vez de elimina-las. Há um só discurso que eu não engoli. “Votar no Bolsonaro é um voto contra a corrupção.” Não acredito que alguém possa ser assim tão ingénuo.

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