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A semana em que nos separamos ou uma semana de férias

Foto do escritor: CatarinaCatarina


A decisão de fazer esta viagem foi um trauma muito grande na nossa vida, tanta incerteza e ainda mais pressão para que não a fizéssemos acabou por nos afectar. Apesar de excitados estávamos cheios de medo, e quanto mais perto do dia da partida mais intenso se tornava este medo. O medo é um sentimento tóxico, que como uma mancha de petróleo se alastra pelo corpo. Fréneticos, desfocados e desarmoniosos fomos descarregando todos os nossos sentimento negativos um no outro desde a preparação até aos primeiros meses, já na América do Sul. A tensão crescia e com ela várias metásteses. Agravado por tanto tempo passado juntos e várias outras dores de crescimento tivemos muitas e muito feias discussões até à Bolívia, onde nos decidimos separar por completo. A decisão foi sendo adiada por uma questão logística, e com o passar do tempo fomos mudando de ideias e de estratégias. Decidimos focar-nos em nós e no sim, esta relação é para ir para a frente, com ou sem viagem. Aprendemos várias ferramentas, começamos a pratica comunicação não violenta, a partilhar mais os nossos sentimentos e expectativas em reuniões semanais, e a estar mais atentos aos desejos expressos e necessidades latentes um do outro. E funcionou. A relação foi melhorando, voltamos a aproximamo-nos e a entender-nos.

Até que chegamos à Bahia e depois de estarmos na Aldeia decidimos conceder umas férias a cada um, afinal já ia praticamente um ano de 24h juntos! Foi assim que eu fui para a costa e o Pedro para a montanha e foi o melhor que nos aconteceu! Ambos nos divertimos muito, desfrutando da nossa própria companhia, e voltamos renovados, cheios de saudades e muito mais serenos. Só precisávamos de algum tempo dedicado inteiramente a nós próprios, cuidando-nos e desfrutando-nos para dar espaço ao outro. Precisávamos sentir a unidade pessoal. Com este tempo para cada um, percebemos que para nós, como casal, é essencial garantir o espaço de cada um, individual (tarefa algo difícil em viagem).



Foi assim que numa terça-feira de manhã me vi à porta do embarcadouro, com a mochila às costas e o nervosismo do primeiro dia de aulas. O Pedro deixou-me na marina de Camamu e seguiu com a carrinha, a Levi e o Pau - o catalão que conhecemos na Aldeia - para a Chapada Diamantina.

Com um profundo suspiro e depois de rever mentalmente a lista de coisas importantes lá fui apanhar a lancha que me levaria para a Barra Grande. A mim, e mais as compras dos restantes passageiros! O chão da lancha estava tão cheio de sacolas que tiveram de me ajudar a entrar e me espremeram entre as batatas fritas de pacote e as colheres de pau de alguém. A alta velocidade lá seguimos todos a abanar pelo canal: a vista era deslumbrante! Árvores com raizes enormes suspensas nas aguas salobas e cristalinas, e nas margens, de vez em quando um povoado ou uma prainha fluvial. Barra Grande é a maior cidade da península de Maraú, que tem apenas uma estrada e é bem arenosa, por isso o meio de transporte mais comum são as lanchas rápidas. Cruzamos-nos com várias pelo caminho, e mesmo estando consciente deste facto não estava à espera do que me presenteou a vista do porto: uma pequena aldeia de ruas de areia e casitas de madeira. Depois de, cordialmente, fintar os operadores turísticos - tudo se vende no porto: hosteis, restaurantes, passeios, cavalgadas, moto4, e por ai vai - dirigi-me com ar decidido para o hostel - afinal estar no brasil sozinha não é brincadeira, “rapadura é doce mas não é mole não”. O meu plano não funcionou pois perdi-me e tive de dar uma de turista na mesma e perguntar o caminho -.- O hostel, Ganga Zumba, superou as minhas expectativas: uma casa terra e duas de dois pisos, caiadas e de varandas amarelas abriam-se para um grande jardim de frutas comestíveis: manga, ananás, graveola, acerola, bananas, caiam, literalmente do céu. Conta também com uma cozinha comunitária ao ar livre, uma zona de leitura e quartos bem confortáveis (bendito ar condicionado e chuveiro à disposição!)



O meu quarto, o Dandara, partilhava apenas com uma senhora com os seus 45 anos, a Roberta e ainda bem, pois o meu objectivo para estes dias era estar sozinha, refletir e meditar. Tampouco este plano funcionou muito bem, logo na primeira noite estava a eu já a jantar na cozinha comunitária, quando o pessoal do hostel foi chegando e por intermédio da minha companheira de quarto se foram apresentando: o Romulo, o Neto, a Jamille, a Fernanda e o Dieter, todos mais velhos que eu mas com muito mais andamento! Acabaram por me arrastar para ir fazer-lhes companhia ao jantar e beber caipirinhas, provei o arroz de polvo à baiana, uma delicia, mas deixei de lado o álcool. A noite em Barra Grande é muito animada: restaurantes para qualquer gosto e bolso, bancas de artesanato e bebidas, música, barzinhos e gente qb. O ambiente é descontraído, chinelo no pé ou descalço mesmo, já que o chão é totalmente de areia! Sair com eles era muito engraçado, a Jamille era a alma do grupo, divertida e atrevida sempre com uma piada sexual no bolso, a Luize fazia conversa com todas as pessoas da rua e a Roberta embarcava nas doidices da Jamille. Eu e a Fernanda ríamo-nos entre divertidas e embaraçadas.


(foto do google)

O dia seguinte amanheceu chuvoso por isso aproveitei para me deleitar com o café da manhã com tempo e calma: papaia, manga, abacaxi e sumo de acerola, seguido de cuscus de milho com ovos mexidos e tomate, um pãozinho com queijo só para acamar e bolo e café para finalizar! Com a pança a abarrotar só consegui arrastar-me até à zona de leitura e folhear alguns títulos. O pessoal foi chegando e quando já estávamos todos decidimos ir almoçar juntos como despedida da Alys, uma voluntariado do hostel que coincidentemente também esteve na Aldeia e estava de partida para a cerimonia de ayuasca com o Alexis! Ainda ponderei ir com ela, mas restingui-me ao plano inicial. Pela tarde o tempo continuou incerto, de forma a que vesti um impermeável por cima do bikini, agarrei o guarda chuva e fui caminhar até à praia dos Três Coqueiros.



Estar sozinha fez-me prestar uma atenção distinta ao meu redor, por segurança, com certeza, estava mais alerta. Também o silêncio me torna mais introspectiva e de alguma forma mais consciente. Foi assim que um mero passeio na praia se tornou um evento extra-sensorial: a chuva miudinha num ar inusitadamente cálido, a beleza do lugar, a paz interior e exterior criaram uma sensação de aventura e satisfação imensas. Sentei-me num tronco e por muito tempo tentei absorver os verdes das folhas, decorar todos os azuis da agua, tatuar a textura dos grãos da areia e tornar-me uma verdadeira menina do mar. No regresso, a dança pelo areal vazio, as caricias das ondas e o sussurro do vento confirmaram que sim: eu sou água, vento, chuva, natureza.



Um dos grandes objectivos em Barra Grande era ver as piscinas naturais. Como estas só se tornam visíveis com maré baixa aproveitei quinta-feira de manhã para ir lá. De forma a chegar antes das 9h acordei bem cedo, engoli o pequeno almoço e apanhei uma jardineira - pick-up de caixa aberta com bancos atrás - para a praia de Taipu de Fora . Cheguei a tempo, mas sem óculos de água pouco se vislumbrava ): Ainda assim consegui ver muitos peixinhos coloridos e brilhantes nos corais e nadar entre peixes-palhaço. Aproveitei para ler e apanhar sol, carregando energia para o regresso. 3km de distância nem me parecia tanto, mas quando à equação se junta o sol tórrido, a temperatura acima dos 30º e o atrito da areia a caso muda de figura! Ainda assim foi um passeio maravilhoso, fui andando e nadando, sorrindo ao sol e descansando nas sombras dos coqueiros, aproveitando a oportunidade de ter uma longa praia tropical só para mim. Pelas duas da tarde cheguei ao restaurante que eu queria, o mais baratinho de pé na areia. Pedi peixe e cerveja e ouvi um podcast IVM com este cenário paradisíaco. Parece que apareceu o tema certo à hora certa pois foi a conversa sobre necessidades desejos e comportamentos e fez-me pensar muito sobre mim e o Pedro. Outro detalhe que muda completamente quando estamos sozinhos é o tempo e isso pode fazer com que a experiência seja ainda mais intensa pois dedica-se o tempo certo a cada coisa.

Já chegando à Barra Grande encontrei o grupo na praia bem animados pois tinham ido fazer uma viagem de barco com caipirinha liberada. Voltamos juntos para o hostel para tomar banho e enquanto as meninas se arranjavam fiz o meu jantar. Nessa noite combinamos voltar juntas para Salvador pois a Jamille e a Luize são de lá. Como no sábado de manhã eu queria assistir aos festejos da nossa senhora da Conceição foi perfeito.



Barra Grande e o seu exotismo e magia ficaram para trás. Sexta feira foi dia de viagem. Apesar de ser perto, a jornada demorou cinco horas: primeiro a lancha, depois o autocarro com ar condicionado ao máximo e cheiro de perfume e por fim um ferry.

Chegar a Salvador quase no final da tarde por mar foi épico: a cidade, aproximando-se aos poucos foi mostrando seus edifícios parecidos com Lisboa. Pisando a terra o frenesim foi contrastante com a harmonia de Barra Grande: vendedores ambulantes, buzinas, bicicletas, recolectores de lixo, enfim, movimento em todas as partes.

Apanhei uma boleia no uber delas até ao elevador Lacerda, dai com a minha tralha às costas percorri meia dúzia de quarteirões do centro da cidade. Tinham-me dito para não ficar na zona do Pelourinho a dormir, por ser perigoso de noite, mas o hostel que escolhi tinha tão bom ar que decidi ir para lá mesmo assim, e não me arrependi. Com um ano de viagem uma pessoa já sabe relativizar a questão do perigo, pois sempre, tudo é muito perigoso para os nossos interlocutores. Fui recebida com uma caipirinha, tomei um banho na piscina onde conheci um casal austrália que estava a caminho do Paraguay. Fiquei num quarto calmo, numa casinha adjacente ao hostel principal, por ser mais tranquilo. Brindou-me um quarto com vista para o palácio de Dona Isabel, que no final nem tive tempo de visitar. Todas as noites tive direito a ouvir um concerto na cama, pois esta cidade transpira música e nem com as janelas fechadas o som se compadeceu com meu sono.



Depois de jantar uma empanada e uma cerveja assistindo a uma roda de samba fui ao ballet folclórico e foi incrível! Uma peça de dança que apresenta a cultura local: orixás, capoeira e raizes africanas. Salvador é conhecido pelos terreiros de camdomblé ou umbanda, uma religião trazida de africa, pelos escravos, de culto aos orixás. estes são divindades com características umas: tem sentimentos e emoções como os homens. A mais conhecida talvez seja Iemanja, a rainha do mar, mas também existe por exemplo Oxum, a rainha das aguas doces, beleza e vaidade, Oxalá o guardião, Olorum o pai de todos e por ai vai. Num culto de candomblé o pai ou mãe de santo recebem o rixa no seu corpo ara transmitir alguma mensagem. tentei muito assistir a um culto, mas não foi desta.



Sabado despertei às 6h, tomei um banho e um café e segui para a basílica da Nª Srª da Conceição cuja festa começou às 7h. Descendo o elevador cheguei rapidinho à Basílica, junto com os mais madrugadores. O cenário de romaria estava montado: rua cortada, vendedores de flores e recordações, televisões transmitindo ao vivo, comida, etc. Sabia que Conceição é uma santa católica, mas como na Bahia tudo é uma misturada ia na expectativa de algo diferente. Fiquei surpreendida por ser só uma miss. Assisti um pouco mas mesmo o sermão era em tudo semelhante aos de Portugal, de forma que preferi sentar-me nas escadas observando as pessoas. Do meu posto conseguia ver a zona mais exótica da festa: o banho de folhas! Os pais ou mãe de santo montam um mesinha com vários tipos de plantas, e conforme os queixumes do cliente, para espantar as energias correspondentes banham-no em folhinhas. Foi muito divertido.



Salvador é negro, tem a maior quantidade de pessoas de cultura negra do Brasil, e isso sentem-se em todo o lado, as ruas pulsam energia e alegria! Vê-se, por exemplo com a grande presença da capoeira. Em cada esquina há uma escola, em cada praça uma roda. Nessa manhã, tive a sorte de apanhar uma roda de mistura de tipos de capoeira, contaram-me o casal ao meu lado, também eles capoeiristas. Fiquei hipnotizada pela lenga-lenga da música, chorada pelo berimbau e os passos que são uma mistura entre dança e luta, entre comunicação e ataque, entre brincadeira e demonstração de poder. Fui embora só quando a sombra já se tinha ido e o sol queimara toda a minha pele. Por sorte no hostel o café da manhã é servido até às 12h, assim quando cheguei ainda pude comer (: Deixei-me ficar no fresquinho do quarto, editando a hora de calor e pelas três fui visitar a cidade, subi e desci as ruelas do pelourinho, fui à igreja do ouro, visitar uma exposição sobre Orixás e outra sobre os blocos de carnaval e sua relevância política. Ao fim da tarde encontrei-me com a Luize e a Fernanda no MAM que todos os sábados tem jazz no sunset.



Domingo foi um dia preguiçoso, conheci a carolina - uma designer carioca - no cafe da manha, deambulamos pelo centro, tomamos uma agua de coco virada para o mar e quando ela foi embora decidi entrançar o cabelo. Depois de muito procurar simpatizei com a dona Luiza, uma velhinha muito simpática com quem conversei durante as duas horas de trabalho. Do nosso posto conseguia ver as baianas, hoje apenas vestidas para chamar turistas aos restaurantes, o maluquinho do centro que andava nú e a criança viciada em craque, dormindo debaixo do palco de concertos. Também via a simpatia dos vizinhos de dona Luiza, que passavam a oferecer comida ou água e o talento dos artesãos que entrançam colares, pulseiras e anéis.

Duas horas depois, tinha o cabelo todo entrançadinho e uma fome do caraças. em busca dum caldeirão uma senhora aconselhou-me a feijoada da dona maria, numa entrada estreita mesmo ao lado do teatro. para não me perder no meio da chuva mandou o empregado acompanhar-me até lá. Realmente difícil de ver mas muito limpinho e a bom preço: 20 reais deu para feijoada de almoço e jantar! Entretanto já era final da tarde e voltei ao hostel para o happy hour da caipirinha. Ia já na segunda quando conheci o grupo da Ciara, uma arquitecta italiana a fazer intercâmbio em São Paulo e o seu grupo de amigos e juntos saímos para jantar, subindo e descendo ladeiras com toda gente morta de fome menos eu que ainda ia cheia de feijoada. Optamos por um restaurante da nova zona trendy, xxx, e eu acompanhei-os com uma cerveja e risadas.



Segunda-feira já foi dia de check-out e para o Pedro não ter de entrar de carro no centro combinamos encontrarmos noutro hostel à beira mar. Pela manhã fui visita a Feira de São Joaquim, a feira mais tradicional de Salvador. Encontra-se de tudo para cultos: velas, potes, colares, chás, especiarias e até jurema! Embriagada de cheiros deixei-me perder entre corredores de cestas, frutas e os mais diversos e desconhecidos artigos. Perdi a cabeça com colares de contas coloridas e segui alegre e contente. Voltei ao hostel para pegar a minha mochila e enquanto almoçava mangas deliciosas conheci a Kati que também ia para a zona da praia. Juntas apanhamos o ónibus para a zona do farol. A Kati é uma inglesa alta e loira que deixa todos os homem a olhar para trás à sua passagem. Deixei as malas no hostel e fui com a ela para a praia. Penso que deve ter sido a mais divertida tarde de praia de sempre! O areal estava azul, completamente lotado de cadeiras! Alugamo-as também e fomos pedindo cervejas à medida que a maré ia subindo e varrendo a linha mais próxima de cadeiras, mesas, chinelos e guarda-sois. Passamos a tarde a conversar sendo permanentemente interrompidas por vendedores ambulantes: massagens, camarões, espetinhos de queijo, artesanato, biquinis, tudo o que se possa adivinhar. Com o pôr-do-sol chegou também a nossa despedida e voltou para o Pelourinho e eu para o hostel, esperar o Peter. Não tardou nada até ouvir o ronco familiar da carrinha e vê-los aos três na esquina. As minhas pernas tremiam! Depois de muitos beijinhos e abraços e algum tempo de reconhecimento fomos fazer o melhor que sabemos: comer! Fomos à Cira, o point de acarajé mais conhecido de Salvador. Provamos abaré, a mesma massa de acarajé - feijão cozido e modo, mas cozido em vez de frito. Adoramos!


Estávamos na praçinha quando vimos um saco da Fruta Feia a passar no ombro de três meninas. Fomos lá cumprimentar: “Olá são Portuguesas, é que vimos o saco da Fruta Feia!?” Foi o mote para começar a conversa, e assim conhecemos a Marta, a Sofia e a Michelle.

Com muitas saudades para matar voltamos rapidamente para a carrinha, estacionada num parque em frente ao mar.

Assim terminou a nossa semana de férias, reunimo-nos energizados, empoderados e com muitas historias para contar!



2 Comments


Dulce Carvalhinho
Dulce Carvalhinho
Apr 03, 2019

Tanta emoção que desperta a leitura!!! Estou sem palavras, não, porque não me tivesse passado já pela cabeça a necessidade de separação,(medo que senti), o que passa pela cabeça de uma mãe!!!!!!! mas por tudo o que foi vivido nesses dias!!!!

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Dulce Carvalhinho
Dulce Carvalhinho
Apr 03, 2019

Grande Mulher!! Grande CATARINA!!!!


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